Atlas da Mentira · checagem verificável

Estimativa de 60 milhões é plausível para governança criminal, mas “áreas controladas” é mais forte do que os estudos medem

Primeira publicação em Edição 1 publicada em

A fala é enganosa.

Um estudo acadêmico estimou entre 50,6 milhões e 61,6 milhões de brasileiros vivendo com alguma forma de governança criminal, faixa que inclui 60 milhões. Mas os próprios autores alertam que isso não significa que todos estejam submetidos ao domínio de facções ou vivam em territórios integralmente controlados por elas. Em pesquisa Datafolha de março de 2026, 68,7 milhões de adultos relataram presença de facções ou milícias no bairro, enquanto cerca de 42,2 milhões disseram que esses grupos influenciavam moderada ou fortemente as regras de convivência. Os números sustentam a escala do problema, mas não comprovam literalmente 60 milhões em “áreas controladas”.

Qualificações importantes

O estudo de Cambridge mede “governança criminal” a partir de relatos de atividades como prover ordem, melhorar a segurança ou reduzir crimes onde a pessoa vive. Os autores dizem explicitamente que “viver com” governança criminal não significa necessariamente estar submetido às regras de uma facção.

  • Criminal Governance in Latin America: Prevalence and Correlates National Estimates and Their Interpretation: Os autores explicam que “living with” governança criminal representa experiência direta com presença e regra de grupos criminosos, mas não significa necessariamente estar submetido ao domínio da gangue; formas e intensidades muito diferentes contam igualmente no indicador.

A estimativa acadêmica para o Brasil deriva do Latinobarómetro de 2020. Ela foi publicada em 2025 e continuava sendo referência antes da entrevista, mas não é uma medição direta de maio de 2026.

  • Criminal Governance in Latin America: Prevalence and Correlates Operationalization: The 2020 Latinobarómetro Survey Instrument: O estudo usa amostras nacionais de cerca de 1.000 a 1.200 respondentes por país e define governança criminal a partir de presença de grupos criminosos e atividades como prover ordem, melhorar segurança ou reduzir crime.

O Datafolha divulgado em maio de 2026 mede primeiro a percepção de presença de facções ou milícias no bairro. Entre quem percebe essa presença, uma parcela relata influência moderada ou forte nas regras de convivência; presença percebida e controle territorial não são equivalentes.

A pesquisa Datafolha foi divulgada depois da entrevista, embora o trabalho de campo tenha ocorrido em 9 e 10 de março de 2026. Por isso, ela ajuda a descrever o período, mas não pode ser tratada como informação pública disponível para o entrevistado em 7 de maio.

O que foi checado

Cerca de 60 milhões de brasileiros vivem em áreas controladas por facções criminosas.

Forma
Paráfrase
Atribuição
Romeu Zema · Atribuição verificada
Função na época
Ex-governador de Minas Gerais e pré-candidato à Presidência da República
Vínculo na época
Novo
Data da declaração
07/05/2026
Contexto
Entrevista ao programa Conexões JBFM, da Rádio JBFM.

Como a proposição foi normalizada: A fala usa a expressão forte “área controlada pelas facções”. A checagem distingue controle territorial de medidas mais amplas, como presença de grupos criminosos no bairro ou atividades de governança criminal percebidas pelos moradores.

Limite de atribuição: A página original do Conexões JBFM foi localizada, e o trecho foi preservado pela Agência Lupa. O player da entrevista não forneceu transcrição verificável nesta execução; o áudio e a minutagem do trecho não foram conferidos diretamente.

60 milhões de brasileiros vivem em área controlada pelas facções.

Explicação

O que os estudos realmente medem

O estudo “Criminal Governance in Latin America: Prevalence and Correlates”, publicado pela Cambridge University Press, estimou para o Brasil uma prevalência de cerca de 26% de governança criminal. A faixa populacional associada ao resultado é de aproximadamente 50,6 milhões a 61,6 milhões de pessoas, de modo que 60 milhões está dentro da incerteza estimada.

Esse resultado, porém, não equivale a dizer que toda essa população vive em território “controlado” por facções. A pesquisa identifica pessoas que relatam, onde vivem, presença de grupos criminosos associada a atividades de governança, como provisão de ordem ou redução de crimes. Os autores observam que os entrevistados podem ter experiência direta com essa governança sem estar pessoalmente submetidos ao domínio do grupo, e que formas de intensidade muito diferentes entram no mesmo indicador.

  • Criminal Governance in Latin America: Prevalence and Correlates National Estimates and Their Interpretation: Os autores explicam que “living with” governança criminal representa experiência direta com presença e regra de grupos criminosos, mas não significa necessariamente estar submetido ao domínio da gangue; formas e intensidades muito diferentes contam igualmente no indicador.

Um levantamento Datafolha feito em março de 2026 e divulgado após a entrevista encontrou que 41,2% dos brasileiros com 16 anos ou mais, equivalentes a 68,7 milhões de pessoas, percebiam presença de facções ou milícias no bairro onde moravam. Esse número é maior que 60 milhões, mas mede presença percebida, não controle territorial.

No mesmo levantamento, 61,4% dos que relataram presença do crime organizado — cerca de 42,2 milhões de pessoas — disseram que esses grupos interferiam fortemente ou moderadamente nas regras de convivência do bairro. Esse indicador se aproxima mais da ideia de poder local, mas ainda não demonstra que 60 milhões vivam em áreas sob controle territorial integral de facções.

Contexto original

A formulação da entrevista

60 milhões de brasileiros vivem em área controlada pelas facções.

Contexto e limites

A melhor defesa e o limite decisivo

A melhor defesa da afirmação é o estudo acadêmico cuja faixa estimada chega a 61,6 milhões de brasileiros vivendo com governança criminal. Sob uma leitura ampla de “controle”, a ordem de grandeza de 60 milhões encontra apoio empírico.

O limite é conceitual: o próprio estudo acadêmico rejeita a equivalência automática entre “viver com” governança criminal e estar submetido a regras de gangues, e o Datafolha separa presença de grupos criminosos da influência sobre regras locais. Por isso, a escala de dezenas de milhões é bem documentada, mas a formulação categórica sobre 60 milhões em áreas “controladas” vai além do que as pesquisas demonstram.

Fontes

  1. Romeu Zema — Conexões JBFM Gravação

    Rádio JBFM

    Alegação original

    Contribuição: Identifica a fonte original e o programa em que a declaração foi feita.

    • Página do episódio Romeu Zema no Conexões JBFM: Página original da entrevista, com player incorporado.

    Limites: O player incorporado não forneceu uma transcrição verificável nesta execução; o áudio e a minutagem do trecho não foram conferidos diretamente.

    Disponibilidade parcial — A página da entrevista está acessível, mas o conteúdo do player não pôde ser inspecionado como transcrição verificável pelas ferramentas disponíveis.

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  2. Em entrevista, Zema erra sobre segurança pública, salário e informalidade Documento

    Agência Lupa · 08/05/2026

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Preserva a redação e a data da fala; sua classificação editorial não é usada como autoridade do finding.

    • Trecho preservado da entrevista de 7 de maio de 2026: Passagem em que Romeu Zema afirma que 60 milhões de brasileiros vivem em área controlada por facções.

    Limites: Fonte secundária para a fala; não substitui a conferência direta do áudio original.

    Disponível

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  3. Criminal Governance in Latin America: Prevalence and Correlates Documento

    Cambridge University Press / Perspectives on Politics · 12/08/2025 · Perspectives on Politics, volume 24, edição especial 1, março de 2026, pp. 124–142

    Evidência

    Contribuição: Fornece a estimativa acadêmica que coloca 60 milhões dentro da faixa para o Brasil e, ao mesmo tempo, define os limites conceituais que impedem equipará-la automaticamente a controle territorial pleno.

    • Operationalization: The 2020 Latinobarómetro Survey Instrument: O estudo usa amostras nacionais de cerca de 1.000 a 1.200 respondentes por país e define governança criminal a partir de presença de grupos criminosos e atividades como prover ordem, melhorar segurança ou reduzir crime.
    • Figure 1 — Estimated National Prevalence of Criminal Governance and Presence: Para o Brasil, a figura reporta prevalência de governança criminal de cerca de 26% e faixa populacional de aproximadamente 50,6 a 61,6 milhões de pessoas.
    • National Estimates and Their Interpretation: Os autores explicam que “living with” governança criminal representa experiência direta com presença e regra de grupos criminosos, mas não significa necessariamente estar submetido ao domínio da gangue; formas e intensidades muito diferentes contam igualmente no indicador.

    Limites: Os dados-base são do Latinobarómetro de 2020, não de 2026.; Os autores descrevem a estimativa como informativa, porém imprecisa, e discutem possíveis erros de mensuração e interpretação geográfica.; O artigo HTML e suas seções metodológicas foram inspecionados; o PDF da editora não pôde ser carregado por limite de acesso nesta execução, e os valores exatos da figura foram conferidos em extração indexada da própria publicação.

    Disponível

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  4. Pesquisa do FBSP aponta que 41,2% da população percebe presença do crime organizado no bairro onde mora Documento

    Fórum Brasileiro de Segurança Pública / Fonte Segura · 13/05/2026

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Oferece um retrato de 2026 que distingue presença percebida de influência sobre regras locais, útil para testar a palavra “controlada”.

    • Presença do crime organizado no bairro: 41,2% da população com 16 anos ou mais, equivalente a 68,7 milhões de pessoas, afirma haver presença de facções ou milícias no bairro.
    • Influência nas regras de convivência: Entre quem relata presença, 61,4% — cerca de 42,2 milhões de pessoas — dizem que o crime organizado interfere fortemente ou moderadamente nas regras de convivência.

    Limites: Foi divulgado depois da entrevista de 7 de maio.; A estimativa de 68,7 milhões cobre pessoas com 16 anos ou mais e mede presença percebida; não é uma medição direta de controle territorial integral.

    Disponível

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  5. 41% dos brasileiros dizem ver atuação do crime organizado no bairro onde vivem, mostra Datafolha Documento

    Folha de S.Paulo · 10/05/2026

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Detalha o trabalho de campo e confirma que a coleta ocorreu antes da entrevista, embora a divulgação tenha sido posterior.

    • Metodologia do Datafolha: Pesquisa presencial com 2.004 pessoas de 16 anos ou mais, em 137 municípios, em 9 e 10 de março de 2026; margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%.

    Limites: Fonte jornalística secundária sobre pesquisa encomendada pelo FBSP; o resumo do próprio FBSP é usado para os resultados centrais.

    Disponível

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Responsabilidade e transparência

Publicação responsável: Atlas da Mentira.

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