Atlas da Mentira · checagem verificável

Os 27% citados por Haddad não medem diretamente um antes e depois da privatização

Primeira publicação em Edição 1 publicada em

O percentual de 27% corresponde ao levantamento da produção da TV Globo para toda a malha de trens e metrôs: foram 205 falhas no primeiro semestre de 2026 e 161 no mesmo período de 2025.

A comparação, porém, mistura linhas públicas e concedidas e não usa uma única data de privatização como corte. Portanto, o número existe, mas não demonstra por si só que a privatização elevou as falhas em 27% nem que 27% seja a alta específica das linhas privatizadas.

Qualificações importantes

O levantamento da TV Globo soma toda a malha sobre trilhos considerada na apuração, e não apenas linhas concedidas à iniciativa privada.

A ressalva de escopo não elimina o dado favorável à crítica de Haddad: as linhas privatizadas, agregadas pelo mesmo levantamento, passaram de 57 para 89 falhas, alta de 56%, e a Linha 7-Rubi passou de 3 para 21, alta de 600%.

As concessões não ocorreram de uma só vez: as linhas 8 e 9 já estavam concedidas desde janeiro de 2022; a Linha 7 passou à TIC Trens em 26 de novembro de 2025; e, em 21 de maio de 2026, as linhas 11, 12 e 13 ainda estavam formalmente sob responsabilidade da CPTM, embora em prática operacional supervisionada com a Trívia.

“Falha” não é uma métrica única entre as fontes. O levantamento jornalístico inclui problemas técnicos e mecânicos em trilhos, maquinário, rede aérea e descarrilamentos; o Metrô divulgou, para sua própria rede, uma contagem mais restrita de falhas em equipamentos com impacto relevante.

O que foi checado

As falhas no sistema ferroviário de São Paulo aumentaram 27% depois da privatização.

Forma
Paráfrase
Atribuição
Fernando Haddad · Atribuição verificada
Função na época
Candidato ao governo de São Paulo
Vínculo na época
Partido dos Trabalhadores (PT)
Data da declaração
14/09/2026
Contexto
Entrevista ao SP1, da TV Globo, durante a série com candidatos ao governo de São Paulo.

Como a proposição foi normalizada: Na formulação preservada pelo g1, Fernando Haddad vinculou a alta de 27% ao período 'depois da privatização' e acrescentou que era o que a imprensa estava noticiando. A referência à CPTM aparece entre colchetes na preservação jornalística, por isso não é tratada como palavra literalmente pronunciada. A checagem testa tanto a exatidão do percentual quanto a impressão de que ele representa uma comparação direta entre antes e depois das concessões.

Contexto original

O que Haddad disse

Na entrevista ao SP1 de 14 de setembro de 2026, Fernando Haddad criticou as concessões de trem e metrô. A preservação jornalística posterior registra a frase em que ele associa o período posterior à privatização a uma alta de 27% nas falhas e diz que esse era o número noticiado pela imprensa.

Eu não vou aceitar, depois da privatização [...], aumentar 27% das falhas, como a imprensa está noticiando.

Quatro dias depois, em outra entrevista, Haddad voltou a ligar os 27% à venda da CPTM e à ideia de que a transferência das linhas ao setor privado piorou o serviço. Essa repetição posterior não altera a formulação de 14 de setembro, mas ajuda a interpretar o sentido de “depois da privatização”: o percentual foi apresentado como evidência de piora no período posterior às concessões, e não apenas como uma referência cronológica neutra.

Explicação

De onde vêm os 27%

O percentual existe no levantamento da produção da TV Globo. A apuração contou 205 falhas nos trens e metrôs de São Paulo entre janeiro e junho de 2026, contra 161 no mesmo período de 2025, uma alta arredondada de 27%. Entram falhas técnicas e mecânicas, como problemas em trilhos, maquinário e rede aérea e descarrilamentos; ficam de fora suicídios, atropelamentos, acidentes no vão entre trem e plataforma e alagamentos.

Esse total, porém, é da rede considerada pelo levantamento, não apenas das linhas privatizadas. Por isso, 27% não é a variação específica das linhas concedidas nem uma comparação estatística construída com um período inteiro “antes da privatização” e outro inteiro “depois”.

Explicação

O que sustenta a crítica

Há um dado importante que favorece a leitura de Haddad. No mesmo levantamento, as linhas privatizadas somaram 89 falhas no primeiro semestre de 2026, contra 57 no primeiro semestre de 2025, alta de 56%. A Linha 7-Rubi, que passou à TIC Trens em novembro de 2025, foi de 3 para 21 falhas, aumento de 600%. Portanto, a crítica não se apoia apenas no total da rede: houve crescimento expressivo também entre linhas concedidas.

Ainda assim, esses números não isolam o efeito da concessão. O próprio material registra que as quatro linhas então operadas pela CPTM também tiveram aumento de falhas, enquanto o conjunto de linhas operadas pelo Metrô teve queda de 8%. A existência de movimentos diferentes entre grupos impede usar o total de 27% como medida causal da privatização.

Contexto e limites

Não houve uma única data de privatização

As linhas passaram à iniciativa privada em momentos distintos. A Artesp informa que a concessão das linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda começou em janeiro de 2022. A TIC Trens assumiu a Linha 7-Rubi em 26 de novembro de 2025. Já em 21 de maio de 2026, dentro do semestre usado no levantamento, a Artesp dizia que as linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade estavam em prática operacional supervisionada, mas permaneciam formalmente sob responsabilidade da CPTM.

Método

Limite da métrica

O levantamento da TV Globo é uma sistematização jornalística diária. O Metrô, ao responder à reportagem, usou uma definição mais estreita e informou 28 falhas em equipamentos com impacto relevante em sua rede no primeiro semestre de 2026, contra 31 em 2025. As duas contagens não são diretamente intercambiáveis, o que exige dizer qual definição de falha está sendo usada.

Assim, o 27% citado por Haddad é rastreável a um levantamento real, mas a formulação “depois da privatização” dá ao número um escopo que o cálculo não tem. O dado de 27% mede a variação da rede inteira entre dois semestres; não mede isoladamente o desempenho das linhas privatizadas nem demonstra que a privatização causou essa variação.

Fontes

  1. Fernando Haddad (PT) fala sobre concessões nas áreas de trem e metrô em entrevista à TV Globo Gravação

    TV Globo / Globoplay · 14/09/2026

    Alegação original

    Contribuição: Fonte original do segmento da entrevista em que Haddad trata das concessões de trem e metrô.

    • Trecho sobre concessões de trem e metrô: Segmento de aproximadamente 1 minuto do SP1 de 14/09/2026 dedicado às concessões de trem e metrô.

    Limites: A página pública disponibiliza o segmento e informa closed caption, mas a superfície textual consultada não expôs a transcrição integral; a formulação da frase foi corroborada pela preservação jornalística posterior.

    Disponível

    Abrir fonte

  2. Veja o que é fato ou fake nas entrevistas com candidatos ao governo de São Paulo no SP1 Documento

    g1, em conteúdo preservado pelo Diário de Comunicação · 16/09/2026

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Preserva a formulação pública atribuída a Haddad e os números centrais do levantamento da produção da TV Globo usados para testar o percentual e seu escopo.

    • Fala de Haddad e base do percentual de 27%: Passagem que preserva a frase de Haddad e informa 205 falhas no primeiro semestre de 2026 contra 161 no mesmo período de 2025, com descrição dos tipos de ocorrência incluídos e excluídos.
    • Falhas nas linhas privatizadas: Passagem que informa 89 falhas nas linhas privatizadas no primeiro semestre de 2026 contra 57 em 2025, alta de 56%, e 21 contra 3 na Linha 7-Rubi.

    Limites: É uma preservação/republicação de cobertura do g1 posterior à entrevista. A classificação editorial feita nessa matéria não foi adotada como autoridade; os dados e a formulação foram reavaliados independentemente.

    Disponível

    Abrir fonte

  3. Falhas nas linhas de trens e metrôs de SP crescem 27% em 2026, e média passa de uma ocorrência por dia Documento

    Rádio Vira Mundo, em reprodução de conteúdo atribuído ao g1 · 08/07/2026

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Permite reconstruir o levantamento publicado em julho, sua metodologia, a separação entre grupos de operadores e as respostas das empresas; a página aponta como fonte a URL original do g1.

    • Total da rede e metodologia: Informa 205 falhas no primeiro semestre de 2026 contra 161 em 2025; descreve inclusão de falhas técnicas e mecânicas e exclusão de suicídios, atropelamentos, acidentes no vão e alagamentos.
    • Privadas versus período anterior: Informa 89 falhas nas linhas privatizadas em 2026 contra 57 em 2025, alta de 56%; Linha 7-Rubi com 21 contra 3, alta de 600%.
    • CPTM e Metrô: Registra aumento nas linhas então operadas pela CPTM e queda de 8% no conjunto das linhas do Metrô entre os primeiros semestres de 2025 e 2026.
    • Nota do Metrô e definição própria: Nota do Metrô informa 28 falhas em equipamentos com impacto relevante em toda a rede no primeiro semestre de 2026 contra 31 no mesmo período de 2025, evidenciando definição distinta da contagem jornalística.

    Limites: A página é uma reprodução secundária que credita o g1 e aponta a URL original; a página original do g1 não pôde ser aberta diretamente na superfície de pesquisa desta execução.

    Disponível

    Abrir fonte

  4. ViaMobilidade 8 e 9 Documento

    ARTESP

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Estabelece que parte relevante da rede já estava concedida anos antes dos dois semestres usados na comparação.

    • Início da concessão: Ficha regulatória informa assinatura do contrato em 30/06/2021 e início da concessão em 01/2022 para as linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda.

    Disponível

    Abrir fonte

  5. Concessão das linhas 11, 12 e 13 entra em nova etapa com prática operacional supervisionada Documento

    ARTESP · 21/05/2026

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Mostra que nem toda a malha incluída no semestre de 2026 estava plenamente sob operação privada e que a transição das linhas 11, 12 e 13 ocorreu dentro do período medido.

    • Responsabilidade formal durante transição: A ARTESP informa que, na prática operacional supervisionada iniciada em 21/05/2026, a Trívia atuava diretamente na transição, mas a operação seguia formalmente sob responsabilidade da CPTM durante o período pré-operacional.

    Disponível

    Abrir fonte

  6. TIC Trens inicia operação e manutenção da Linha 7–Rubi nesta quarta-feira (26) Documento

    TIC Trens · 26/11/2025

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Fixa a data em que a Linha 7-Rubi passou à operação privada, permitindo distinguir o primeiro semestre de 2025 do primeiro semestre de 2026 nessa linha.

    • Início da operação da Linha 7-Rubi: A concessionária informa que assumiu a operação e manutenção da Linha 7-Rubi em 26/11/2025 e que a entrada em operação marcou o início da concessão.

    Limites: Fonte da própria concessionária; usada para a data de início operacional, corroborada pela cobertura e por documentos públicos, não para avaliar a qualidade do serviço.

    Disponível

    Abrir fonte

  7. 'Se você não deve nada, tem que colaborar com a investigação', diz Haddad sobre crise no STF Documento

    Estadão, em republicação no Terra · 18/09/2026

    Contexto

    Contribuição: Ajuda a testar a interpretação da expressão 'depois da privatização' ao mostrar que Haddad repetiu o percentual de 27% como evidência de piora associada à transferência de linhas ao setor privado.

    • Repetição do enquadramento sobre CPTM e 27%: Trecho em que Haddad volta a vincular a venda da CPTM a 27% a mais de falhas no sistema e, em seguida, questiona a transferência da administração das linhas ao setor privado em razão da piora do serviço.

    Limites: Entrevista publicada quatro dias depois da fala checada e acessada em republicação no Terra; é usada somente para interpretar a repetição do enquadramento, não para substituir a formulação de 14/09 nem para provar os números.

    Disponível

    Abrir fonte

Responsabilidade e transparência

Publicação responsável: Atlas da Mentira.

Metodologia e significado dos achados · Solicitar correção

Encontrou um erro?

Indique o ponto que precisa ser revisto e, se possível, a evidência que sustenta a solicitação. O envio fica privado até análise.

Aponte o trecho, dado ou conclusão que você acredita estar incorreto ou incompleto.

Se possível, inclua links, documentos ou referências que sustentem a solicitação.

Não será publicado. Podemos usá-lo apenas se precisarmos esclarecer esta solicitação.